Cristina Kirchner é eleita presidente da Argentina

Ela assume em 10 de dezembro, para um mandato de quatro anos, depois de uma campanha marcada pela apatia e de uma votação conturbada por atrasos e suspeitas de fraude.

 

Com mais de 93% das mesas eleitorais apuradas, os números indicam que a peronista, senadora por Buenos Aires e primeira-dama Cristina Fernandes de Kirchner, 54, tornou-se nesta segunda-feira (29) a primeira presidente eleita da história da Argentina. Ela assume em 10 de dezembro, para um mandato de quatro anos, depois de uma campanha marcada pela apatia e de uma votação conturbada por atrasos e suspeitas de fraude. Até as 7h locais (8h de Brasília), Cristina tinha 44,63% dos votos, contra 23,1% da oposicionista Elisa Carrió e 16,99% do ex-ministro Roberto Lavagna. O resultado é suficiente para dar já no primeiro turno a vitória para a mulher do atual presidente, Néstor Kirchner. Cristina torna-se assim a primeira mulher eleita presidente na Argentina, país em que 30% dos eleitores declararam que jamais votariam numa candidata feminina. De 1974 a 76, o país havia sido governado por Isabelita Perón, que não foi eleita: assumiu após a morte do marido, Juan Domingo Perón. Na noite de domingo, bem antes de a apuração indicar sua vitória, a primeira-dama já havia se declarado vencedora. Em um discurso emocionado, antes mesmo da admissão de derrota dos demais candidatos, ela agradeceu os votos e conclamou os argentinos à união e disse que vai tentar manter o forte crescimento econômico, principal trunfo da campanha e do atual governo. Em um hotel no centro de Buenos Aires, Cristina falou e foi interrompida diversas vezes pelos aplausos de militantes. Elogiou e agradeceu diversas vezes a Néstor. Frisou que ganhou talvez com a maior diferença de votos entre o primeiro e o segundo colocado desde a redemocratização do país, em 1983. "Isso só aumenta minha responsabilidade." Acompanhada por Kirchner e por Julio Cobos, o candidato a vice em sua chapa (que, por ser um ex-radical, de um grupo político em tese rival do peronismo, não foi aplaudido ao ser anunciado), Cristina disse que tem "uma dupla responsabilidade" após ter ser escolhida presidente. "Quero convocar todos sem rancores, sem ódios. Nós merecemos um país melhor", disse. "Quero agradecer a Julio Cobos (vice-presidente eleito) e a 'Concertación Plural', espaço que conseguimos construir superando velhas divergências", disse, sobre a aliança do peronismo governamental com os social-democratas dissidentes da União Cívica Radical (UCR). Uma das chaves da vitória foi o grande número de votos na província de Buenos Aires, o maior distrito do país e que concentra quase 40% dos mais de 27 milhões de eleitores, e onde foi eleito governador Daniel Scioli, atual vice-presidente. Apesar disso, Carrió venceu o pleito na capital com boa vantagem. A campanha de Cristina capitalizou os resultados econômicos do governo Kirchner, depois que ficou para trás o pior da crise do default de 2001, com um governo de perfil industrialista, taxas de câmbio altas para as exportações e um aumento anual de 9% do PIB. Porém, o futuro governo deverá enfrentar uma elevada inflação real de 15% a 20% (que, segundo os opositores, estaria sendo camuflada pelo governo com objetivos eleitorais) e a possível queda dos investimentos. Analistas internacionais temem que o alto nível do gasto governamental, o câmbio, a inflacao em alta e o vencimento de títulos públicos marcado para 2008 sejam armadilhas para a próxima administração. Adversários Logo após Cristina se ter declarado vencedora, sua adversária mais próxima, Elisa Carrió, recusou-se a admitir a derrota e ainda criticou a postura da adversária, dizendo ter achado "estranho" o discurso de Cristina ter sido feito tão cedo, quando mais da metade dos votos nem havia sido apurada. Mais tarde, no entanto, quando a apuração já tinha ultrapassado 50% das mesas, ela acabou reconhecendo a derrota. Quando o fez, no início da madrugada desta segunda, vários governantes sul-americanos já tinham parabenizado Cristina pela provável vitória, incluindo o presidente Lula. "A Coalizão Cívica firmou-se como a segunda força política do país", ressaltou Carrió, que já pensa nas próximas eleições. "Vou me dedicar a fortalecer ainda mais a coalizão para fazer o próximo presidente, daqui a quatro anos." O primeiro candidato a reconhecer a vitória de Cristina Kirchner foi Jorge Sobisch, do Movimento Províncias Unidas, de direita. O governador da província de Neuquén (sudoeste) teve menos de 2% dos votos. A oposição argentina apresentou 13 chapas contra a candidatura oficial. Segundo analistas, isso acabou fortalecendo a campanha de Cristina, que soube manter um clima de vitória, apoiado na divulgação de pesquisas eleitorais, desde o início do processo. Os opositores bateram nos temas da inflaçãao, da segurança pública e da suposta corrupção, mas não foram capazes de alterar o rumo da disputa. Atrasos e suspeitas A votação argentina começou com atrasos no domingo, o que provocou na capital filas que obrigaram a Justiça Eleitoral a prorrogar o prazo final de votação de 18h para 19h locais (de 19h para 20h de Brasília). Além dos atrasos na capital, a votação foi marcada por suspeitas de fraude levantadas pelos quatro principais candidatos de oposição. As chapas oposicionistas denunciaram a suposta falta de listas de candidatos (geralmente oposicionistas) em vários locais de votação do chamado "conurbado" da capital e de províncias como Córdoba e Neuquén, o que poderia induzir o voto dos eleitores. A reportagem ouviu dois eleitores que confirmaram esses relatos. O taxista Luís Osvaldo Gregolin, que vota em Barracas, zona sul, disse que havia listas faltando. Ele relata que teve de chamar um policial para garantir que as listas dos seus candidatos fossem entregues. Demorou quase uma hora para votar. Uma eleitora de Avellaneda, que não quis se identificar, relatou história parecida. Em entrevista a uma TV local, o diretor nacional eleitoral, Alejandro Tullio, minimizou esses incidentes. Segundo ele, trataram-se de falhas, mas não de irregularidades. O voto começou às 8h locais (9h de Brasília) com muitos atrasos provocados pelo número insuficiente de autoridades em vários distritos eleitorais da capital e também de algumas cidades do interior. Durante a manhã, a reportagem percorreu zonas eleitorais em Chacarita, Palermo e no centro e, em todas elas, havia filas, falta de informação e mau-humor. "Cheguei mais cedo para ficar livre e me sinto punido", reclamou o aposentado Manuel Canepa, primeiro da fila em uma escola em Chacarita. Ele foi um dos eleitores a reclamar do atraso no começo da votação, dizendo que o fato é comum no país, mas não tanto como desta vez. O problema ocorreu porque muitos dos convocados não responderam ao apelo da Justiça Eleitoral, pois geralmente não há punição grave em caso de falta. A autoridade recorreu a funcionários judiciais e a voluntários, mas mesmo assim não conseguiu preencher todos os cargos. Fonte: uol

Notícia Postada em 29/10/2007
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