Os loucos de Água Preta

 

O poeta Manoel de Barros Diz que “No osso da fala Dos loucos tem lírios” E que “Poema é o lugar Onde a gente pode afirmar Que o delírio é uma sensatez”. ... Itanhém - nos anos sessenta Tinha poucos loucos O que impressionava É que nenhum deles tinha parente Nem aderente... Uns vinham E permaneciam Para sempre - Caso de Ana Doida. Alguns apareciam Somente de vez em quando Ficavam uns tempos Sumiam e depois voltavam e sumiam Como Telate e Dequinha Doido. Outros Eram loucos Por ignorância da maioria: A doideira de Alafror Sofria de epilepsia! Tomava surras tipo sossega leão Quando atacado de violenta crise Para não resistir à imobilização. ... João Izola, maluco cigano Nem louco era Doido de fato Era Nato (Irmão de Zé Capenga E de Celi Dalva - Filhos de Senhorim) Que fazia papel de partner Com bagana de cigarro na boca Para João Izola Quebrar ao meio Com bola de gude Arremessada de bodoque Ou estilingue, Tantas jardas de distância. ... Manezim Ferreira, disseram: - Endoidou! Olhava-o de longe. Ele lá: na sua tenda de ferreiro E todo mundo dando voltas Para evitá-lo. Um dia peguei coragem E cheguei perto: Vi que Manezim de Losa Nas circunstâncias do seu terreiro Demonstrava com muito gesto E pouca prosa Que detestava os troianos Feito Nelson Dedão E amava os gregos Tipo Zé Bananeira. Era o mesmo lúcido e manso De todo dia. O resto era besteira! ... Louco esperto Era Zé Doido Que fazia dinheiro: Notas de dez eram outros quinhentos. ... Mas, quem foi Telate? Devia de ter entre vinte a trinta anos. Calmo: era que nem boi da junta De carro de boi de Hilário Pá Larga Enfurecido: era o boi Quiabo. Pior, não! Porque brabeza maior Que a do boi Quiabo Nunca existiu. Preso na cadeia que naquele tempo Entre Olavo Brechó e Jamilton Na rua da casa do motor Telate fez com as unhas Um buraco na parede da cela E fugiu num sábado de madrugada Quando principiava a feira Na Praça da Liberdade. Os outros presos Que não eram malucos Nem bobos Aproveitaram e escapuliram também. Telate somente se rendia Ao soldado Soares Pelas palavras de efeito Feito camisa de força. Geraldo Piau, certa vez, Convidou-me: “Vamos conversar Com Telate lá no chiqueiro!” Algum água-pretense de hoje Pode imaginar um chiqueiro Para prender louco? Em Itanhém faziam Um quadrado De troncos de madeira Parecido com fogueira de São João. O doido ficava enjaulado Exposto a sol e chuva Olhou pro meu conga sete vidas E pediu: - Dá esse sapatim pra mim? - Mas Telate olha o tamainzim, não serve em você! - Serve sim, meu pé é quiném pezinho de bebê! Begão (jcsradvogado@yahoo.com.br) Veja outros textos

Notícia Postada em 08/03/2012 por: Begão
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