Deixar recado Recados: 1757
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.88.163
Mensagem: O MEIO E A CRÍTICA IMEDIATA - Fidelino de Figueiredo

. . .

Esta esquematização da carreira de uma obra poética no encadeamento de três meios pode não ter muita originalidade, mas é muito cômoda.

Põe-nos bem à vista o inevitável caráter social e coletivo de todo o labor de criação, onde o poeta mais singularmente individualista só o é num instante: é formado por uma coletividade, transpõe para a obra de sua inspiração uma coletividade e expressa-a numa organização estética de conteúdo coletivo, destinada a ser entendida por uma coletividade e a viver inextinguivelmente no seio dela.

Pode-se objetar: uma obra de poesia pura não encerra nenhum meio de gentuça a pulular, como uma série de romances ou de peças de teatro.

. . .

IDEÁRIO CRÍTICO DE FIDELINO DE FIGUEIREDO
ORGANIZAÇÃO  , PREFÁCIO E NOTAS DE
CARLOS DE ASSIS PEREIRA - 1962.
Data: 01/02/2014 às 02:54:55
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.124.217
Mensagem: O MEIO E A CRÍTICA IMEDIATA - Fidelino de Figueiredo

. . .

De fato foi a sociedade liberal da Restauração com seu revolver profundo, com a sua burguesia enriquecida e o estertor da aristocracia, o alfobre predileto dos seus motivos.

O meio ideal foi a sociedade ou o Estado que palpita na Comédie Humaine, uma população densa a trabalhar e a amar, a intrigar e a sofrer na politicagem e na aventura da vida intensa e das imediatas transformações, ascensões e quedas.

E este meio ideal tem vindo correndo pelos espaços e pelos tempos, na sua organização fictícia, mas inalteravelmente duradoura, como formidável companhia de cômicos e saltimbancos a representar por toda a parte as mesmas tragicomédias.

O acolhimento nos mais variados meios receptores e a influência sobre eles exercida tem sido tais que a irradiação da cidade balzaquiana ocupa um vasto departamento da crítica comparativa, de muito especial interesse para o estudo dessa colaboração póstuma dos meios ledores.

. . .

IDEÁRIO CRÍTICO DE FIDELINO DE FIGUEIREDO
ORGANIZAÇÃO  , PREFÁCIO E NOTAS DE
CARLOS DE ASSIS PEREIRA - 1962.

Data: 31/01/2014 às 01:47:09
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 200.153.194.191
Mensagem: O MEIO E A CRÍTICA IMEDIATA - Fidelino de Figueiredo

. . .

E o meio receptor de Dickens foi e é o infinito mundo dos seus leitores ingleses e não ingleses, coevos e pósteros, todos se apiedando em pura emoção estética ou em esforços de reformação moral.

Outra vez um rosário de influências e de ideias interpretativas, toda a longa oscilação das cotações estéticas, até atingir a estabilidade da história.

Igualmente fácil é apontar os três meios de Balzac.

O meio formador foi constituído pelo seu pequeno ambiente provinciano e familiar, pelo cartório do notário seu patrão, pelas misérias da sua trapeira parisiense e pelo espetáculo grandioso das transformações sociais e espirituais da França desde a Revolução de 1789 e de Napoleão, turbulentos mundos então ainda muito presentes na memória, até a Revolução de 1848.

. . .

IDEÁRIO CRÍTICO DE FIDELINO DE FIGUEIREDO
ORGANIZAÇÃO  , PREFÁCIO E NOTAS DE
CARLOS DE ASSIS PEREIRA - 1962.
Data: 30/01/2014 às 01:42:47
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 200.153.194.191
Mensagem: O MEIO E A CRÍTICA IMEDIATA - Fidelino de Figueiredo

. . .

O meio ideal é o mundo todo da Divina Comédia, a totalidade da história terrena e do mundo eterno, segundo a teologia cristã - o mundo tríplice do Inferno, do Purgatório e do Paraíso, onde as sombras humanas se prolongavam sem termo, muito mais desproporcionadas que nos nossos prolixos crepúsculos.

E o meio receptor é, ocasionalmente, o público ledor que ao poema imortal vai buscar emoção estética, regras de vida, temas de meditação.

Este terceiro meio é como a carreira de uma incansável e imorredoura mariposa a soltar gérmenes através dos séculos - um rosário de influências e de interpretações.

. . . Dia 28.01.14 - 01:30

IDEÁRIO CRÍTICO DE FIDELINO DE FIGUEIREDO
ORGANIZAÇÃO  , PREFÁCIO E NOTAS DE
CARLOS DE ASSIS PEREIRA - 1962.
Data: 30/01/2014 às 01:24:20
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.103.45
Mensagem: O MEIO E A CRÍTICA IMEDIATA - Fidelino de Figueiredo

. . .

Para Dickens o meio formador foi constituído pelo lúgubre ambiente familiar, pelas misérias londrinas do seu plano social, pelas incertezas do seu jornalismo proletário e pelo espetáculo dos sofrimentos infantis, logo pelas suas viagens à America e à Itália, e pelo advento da era vitoriana com suas grandezas e seus orgulhos.

O meio ideal é a sociedade dos seus romances, uma Londres muito mais real e duradoura que a de Portsea, onde cresceu, uma Londres que reunia com dolorosa intensidade todas as misérias, injustiças e tristezas do panorama social do liberalismo a degenerar em capitalismo insensível até à cegueira para com os humildes e as crianças - humildes e crianças adoráveis pelo seu poder de simpatia, pela sua irradiação humorística, vítimas que abrandavam os próprios verdugos.

. . .

IDEÁRIO CRÍTICO DE FIDELINO DE FIGUEIREDO
ORGANIZAÇÃO  , PREFÁCIO E NOTAS DE
CARLOS DE ASSIS PEREIRA - 1962.
Data: 29/01/2014 às 01:09:10
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.96.37
Mensagem: O MEIO E A CRÍTICA IMEDIATA - Fidelino de Figueiredo

. . .

Mas a comparação não é sustentável, porque, muito ao contrário do que decorre nesse mundo, não é a borboleta que é efêmera; ela é que é perene até à imortalidade. Esta relativa imortalidade de quanto se passa sobre o globo terráqueo com seus dias contados pelo calorzinho que lhe vem do Sol. . .

E apontou alguns exemplos, exemplos acessíveis e de uma grande evidência.

Para Dante o meio formador é o complexo tecido de circunstâncias que lhe constituíram a forte personalidade: a educação segundo o conceito cavalheiresco medieval, a sociedade florentina, as lutas truculentas da política, os ódios de guelfos e gibelinos, a sua passagem pelo governo, logo expiada por um exílio amargo e sem fim, o asilo de Ravena, a prodigiosa arquitetura da filosofia escolástica, dialética amplificadora de Aristóteles e das Sagradas Escrituras, tudo que lhe guarneceu a inteligência de ideias, de emoções e de inquietação julgadora.

. . .

IDEÁRIO CRÍTICO DE FIDELINO DE FIGUEIREDO
ORGANIZAÇÃO  , PREFÁCIO E NOTAS DE
CARLOS DE ASSIS PEREIRA - 1962.
Data: 27/01/2014 às 01:21:22
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.73.55
Mensagem: O MEIO E A CRÍTICA IMEDIATA - Fidelino de Figueiredo

. . .

Os três meios, o formador, o ideal e o receptor, verdadeiramente são conjuntos de ambientes e correspondem a outras tantas gradações cronológicas e a outros tantos comportamentos intelectuais do indivíduo e da coletividade. que se verificam, sempre no nascimento ou no brotar de qualquer grande obra e na sua biografia ou na sua carreira de organismo estético autônomo - tão autônomo como a vida dos filhos adultos ante a dos progenitores.

Esta sucessão de ambiências, que na obra poética se concentram e dela se soltam, faz pensar na evolução biológica de alguns animais, nas metamorfoses das larvas obscuras, das crisálidas reconcentradas e das mariposas ovantes.

. . .

IDEÁRIO CRÍTICO DE FIDELINO FIGUEIREDO
ORGANIZAÇÃO  , PREFÁCIO E NOTAS DE
CARLOS DE ASSIS PEREIRA - 1962.

Data: 26/01/2014 às 00:56:05
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.70.231
Mensagem: O MEIO E A CRÍTICA IMEDIATA - Fidelino de Figueiredo

. . .

Mas o professor, seguindo um instante um adejo das aves, sorriu, interpretando talvez aquela revoada buliçosa por uma anunciação: aqui vai-se falar de poesia!

O certo foi que o ambiente contraiu certa vibração uníssona e sequiosa de coisas belas. . .

Nos arraiais da ciência da literatura há também uma pequena gíria. Usa-se muito a palavra "meio" mas em três acepções diversas, ainda que próximas parentas.

Talvez dissesse melhor que se lida com três tipos de meios sociais. A primeira acepção ou o primeiro tipo é o meio formador, o meio ou o conjunto de meios em que se forma o poeta; a segunda é o meio ideal, o meio criado pelo poeta em suas obras; a terceira é o meio receptor, o meio que recebe a obra e a transmite indefinidamente aos vários públicos ledores que se vão constituindo, com as variações do gosto e das ideias, através da história.

Conste que se toma aqui a designação "poeta" no sentido genérico: todo o criador de supra-realidades
por meio da palavra.

. . .

IDEÁRIO CRÍTICO DE FIDELINO DE FIGUEIREDO
ORGANIZAÇÃO  , PREFÁCIO E NOTAS DE
CARLOS DE ASSIS PEREIRA - 1962.
Data: 25/01/2014 às 05:58:06
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.83.215
Mensagem: O MEIO E A CRÍTICA IMEDIATA - Fidelino de Figueiredo

. . .

A experiência lhe mostra que o ensino é tanto mais profícuo quanto mais diretamente responde a curiosidades espontâneas e a impulsos intelectuais dos alunos. A variação dos temas e uma certa emoção de atualidade constituem fecundos motivos de interesse que facilitam o recebimento das ideias, assim tornadas valores vivos em vez de abstrações.

E começou a sua exposição. A sala da aula, sita numa galeria alta, sobranceira ao jardim, recebia uma linda luz esmeraldina aguada, que lhe vinha da filtragem através da espessura verde das frondes. No momento que o mestre ergueu a voz, um bano de pombos bateu as asas e partiu por sobre o maciço das velhas tílias. Algum estudante recordaria a partida de ouvintes descorteses que as primeiras palavras de um preletor decepcionam.

. . .

IDEÁRIO CRÍTICO DE FIDELINO DE FIGUEIREDO
ORGANIZAÇÃO  , PREFÁCIO E NOTAS DE
CARLOS DE ASSIS PEREIRA - 1962.
Data: 24/01/2014 às 03:45:40
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.85.253
Mensagem: O MEIO E A CRÍTICA IMEDIATA - Fidelino de Figueiredo

. . .

Por enquanto andamos a flutuar, com maior ou menor transigência ante os impressionismos, que uma vez por outra se reabilitam por provirem de impressionistas de alto coturno.

Então a crítica seria apenas a habilidosa ou "interessante" revelação do espírito do crítico, sob o pretexto oferecido pela obra, literatura de segunda mão à margem de literatura de primeira categoria, lirismo em prosa, lirismos sem iniciativa, que partia de uma alheia imagem da vida. . .


Naquele dia 10 de Junho o professor associou à sua exposição o poema de Camões, como exemplo da alta poesia, a confirmar as suas ideias. Anuía também à insinuação de alguns estudantes, que desejavam lhes apontasse que poderia um velho poema quinhentista, recheado de história e mitologia, conter de útil à gente moça do meio do século XX.

. . .

IDEÁRIO CRÍTICO DE FIDELINO DE FIGUEIREDO
ORGANIZAÇÃO  , PREFÁCIO E NOTAS DE
CARLOS DE ASSIS PEREIRA - 1962.
Data: 23/01/2014 às 04:34:13
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.77.50
Mensagem: O MEIO E A CRÍTICA IMEDIATA - Fidelino de Figueiredo

. . .

Havia muito mais objetividade nessas confissões do próprio autor, ainda que ele se não compreendesse em toda a extensão do seu gênio, do que nos primeiros juízos dos críticos profissionais seus contemporâneos, blasés de leituras, como a cortesã Ester enjoada do amor profissional. . .

No dia em que se generalizar este conhecimento da impossibilidade da crítica literária imediata, em que definitivamente se concentrar a atenção dela sobre a obra como vida nova, tal qual o filho se solta dos pais, no dia em que crítica for sinônimo de leitura em profundidade e não de erudição marginal, quando o conteúdo e o destino da obra forem o tema principal dessa crítica e o recebimento da força promotora ou dos estímulos estéticos da obra prevalecer sobre a preocupação avaliadora ou quando se conseguir algum critério judicativo articulado à filosofia do conhecimento - nesse dia a crítica literária ou a ciência da literatura terá dado um passo decisivo para a sua dignificação.

. . .

IDEÁRIO CRÍTICO DE FIDELINO DE FIGUEIREDO
ORGANIZAÇÃO  , PREFÁCIO E NOTAS DE
CARLOS DE ASSIS PEREIRA - 1962.
Data: 22/01/2014 às 08:45:10
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.78.174
Mensagem: O MEIO E A CRÍTICA IMEDIATA - Fidelino de Figueiredo

. . .

Em ambos estes passos, se confessa em metaforismos diferentes o mesmo reconhecimento da impossibilidade da crítica judicativa de obras coetâneas do crítico. Tudo que seja tentar alguma coisa mais do que noticiar, expor impressões subjetivas e combater policialmente o francamente mau, é ultrapassar os limites estreitos da primeira forma dessa direção do espírito, a crítica (V.
Aristarcos, 4a. conferência).

Bem patentes estão os erros da crítica imediata sobre as obras de Balzac, não somente no posterior desenvolvimento dos juízos públicos e nas reações do próprio Balzac, nas declaradas na imprensa do tempo, algumas das quais estão extratadas no livro do Prof. Hervier, mas também nas cartas de Mme. Carraud e "à l'Etrangère".
Data: 21/01/2014 às 07:30:16
De: leobino neto   Para: itanhem fest - Meu IP: 187.29.54.248
Mensagem: Bom dia meus amigos...
sugiro a voces a postarem apenas noticias da nossa cidade e/ou da região... Colocar noticia de MANAUS... fica um pouco fora de nossa realidade...

uma dica.

abraços.
Data: 16/01/2014 às 10:37:10
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.86.175
Mensagem:
O MEIO E A CRÍTICA IMEDIATA - Fidelino de Figueiredo

. . .

Estava-se então no primeiro dia da crítica jornalística. Natural era que o descobrimento de Balzac se envolvesse nos sentimentos de sua experiência pessoal, que não era boa recordação.

Menénde  z y Palayo, menos provado pela incompreensão dos críticos seus contemporâneos, chegou a uma conclusão análoga pela via do especialismo erudito. Ele a declara num passo, que cito no ensaio Depois de Eça de Queirós . . . : "Quem viu alguma vez um estudo de Taine ou de Renan sobre o último drama de M. Daudet ou sobre a última comédia de M. Sardou?

Falar hoje de um sermão e amanhã de uma zarzuela e no outro dia de filologia oriental não pode ser por fim mais que uma dissipação do espírito, à qual não há temperamento verdadeiramente robusto que resista" (España Moderna, Madri, 1894).

. . .

IDEÁRIO CRÍTICO DE FIDELINO DE FIGUEIREDO
ORGANIZAÇÃO  , PREFÁCIO E NOTAS DE
CARLOS DE ASSIS PEREIRA - 1962.
Data: 07/01/2014 às 06:20:19
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.68.140
Mensagem:
O MEIO E A CRÍTICA IMEDIATA - Fidelino de Figueiredo

. . .

A primeira fase desta evolução dos juízos sobre a sua obra inspirou a Balzac um grande e desdenhoso ceticismo sobre a crítica. Mas, por detrás da fórmula ofensiva em que ele confessa tal opinião, há uma grande verdade, que é a impossibilidade de bem julgar uma grande obra, contemporânea dos julgadores.

É um longo e alteroso destino que principia e que ninguém pode adivinhar. Esse destino é que vem completar o conjunto orgânico "autor, obra e meio".

Como uma cortesã desenganada não pode amar, um crítico saturado de leituras apressadas não pode julgar.

Havia na mentalidade do crítico imediato alguma coisa de prostituição.

. . .

IDEÁRIO CRÍTICO DE FIDELINO DE FIGUEIREDO
ORGANIZAÇÃO  , PREFÁCIO E NOTAS DE
CARLOS DE ASSIS PEREIRA - 1962.

Data: 06/01/2014 às 04:59:10
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.94.143
Mensagem:
O MEIO E A CRÍTICA IMEDIATA - Fidelino de Figueiredo

. . .

f) Balzac genial revelador de si mesmo, ou seja de uma
grande força criadora de uma consciência tendenciosa, mas ávida de compreender e julgar para governar os homens, como o seu Gobsek das suas atividades de usura
um governo das almas na penumbra de um alto gozo estético, espécie de invencível vício secreto.

Agora subalterniza-se a obra ao autor, a criação poderosa e imortal ao criador há muito desaparecido com suas vulgares ambições e suas humaníssimas fraquezas de homem de letras combatido e mal percebido.

Esta crítica é um passo atrás na marcha das idéias e dos métodos. Representa-a Stephan Zweig, "corifeu da cultura intervalar" (V. Cultura Intervalar, Coimbra, 1945, pags. 89-104) e não deixa de também a representar em certa medida Albert Thibaudet, com toda a sua engenhosa superioridade.

. . .

IDEÁRIO CRÍTICO DE FIDELINO DE FIGUEIREDO
ORGANIZAÇÃO  , PREFÁCIO E NOTAS DE
CARLOS DE ASSIS PEREIRA - 1962.
Data: 05/01/2014 às 08:23:59
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.89.9
Mensagem:
O MEIO E A CRÍTICA IMEDIATA - Fidelino de Figueiredo

. . .

E tanto se repete a composição interna dos seus romances, que pode ser cifrada num esquema: um amor contrariado por prejuízos de classes, desigualdades econômicas e sociais, a rija têmpera de almas que se lançam à luta e sucumbem desfeitas em dor ou só atingem a realização do seu sonho e o reconhecimento da sua legitimidade após sofrimentos heroicos, em tudo
sendo peça decisiva a colaboração de algum aliado inesperado, que representa a solidariedade dos melhores, que são quase sempre os humildes.

Não se poderia ver no romancista português um demolidor das sobrevivências da velha ordem em pleno liberalismo e um reabilitador dos foros da paixão livre? Assim, também para Camilo, como para todo o romancista de grandes conjuntos históricos, pode haver uma crítica interpretativa de caráter político-social, obediente ao pendor dos tempos. No caso de Camilo a flagrância é tal que nem falta o tema dileto de Balzac: os estragos do dinheiro, agora não procurado avidamente, mas herdado através de gerações. É o assunto do Demônio do Ouro, de 1873-74.

. . .

DIÁRIO CRÍTICO DE FIDELINO DE FIGUEIREDO
ORGANIZAÇÃO  , PREFÁCIO E NOTAS DE
CARLOS DE ASSIS PEREIRA - 1962.
Data: 03/01/2014 às 00:00:34
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.66.70
Mensagem:
O MEIO E A CRÍTICA IMEDIATA - Fidelino de Figueiredo

. . .

Balzac defende o regresso da aristocracia, porque a supõe uma nata moral das sociedades humanas, crê tanto bela quanto desdenha a burguesia; esta crítica moderna da sua obra parte daquela sua febre do dinheiro agente de todo o bem e de todo o mal para a visão materialista do homem, como passivo reflexo da sua situação econômica. Encontro estas coisas todas num, representativo espécimen da moderna crítica russa, o ensaio de de V. Grib.

Este critério político-social é outro exemplo daquela ação do meio ledor, que falava no começo deste arrazoado. Também o nosso grande Camilo é suscetível desse tipo moderno de crítica. Até aqui tem sido visto principalmente como forjador incansável de novelas passionais, um Balzac português mais aplicado ao efêmero do que ao perpétuo.

. . .

IDEÁRIO CRÍTICO DE FIDELINO DE FIGUEIREDO
ORGANIZAÇÃO  , PREFÁCIO E NOTAS DE
CARLOS DE ASSIS PEREIRA - 1962.

Data: 01/01/2014 às 08:41:11
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.67.72
Mensagem:
O MEIO E A CRÍTICA IMEDIATA - Fidelino de Figueiredo

. . .

c) Balzac agente da libertação do homem, Balzac demolidor de um sistema político-social de interesseira imoralidade, em que o dinheiro era o móbil ofuscador de todos, em correria para o vórtice.

Esta é a crítica partidária moderna, que remonta a Karl Marx e Engels.

Naturalmente é russa predominantemente, prescinde de todo o capital de erudição e ideias, acumulado pela crítica especializada e contenta-se com ler e reler a obra de Balzac, para dela recortar os fatos e os juízos do romancista sobre o mundo que nos apresenta.

Esta crítica chega à conclusão primeira de Balzac, limiar condenação desse mundo, mas dela extrairá um escólito de sentido oposto: em vez de apologia do retorno da aristocracia, renovada em sua consciência, a apologia da revolução destruidora das classes.

. . .

IDEÁRIO CRÍTICO DE FIDELINO DE FIGUEIREDO
ORGANIZAÇÃO  , PREFÁCIO E NOTAS DE
CARLOS DE ASSIS PEREIRA - 1962.
Data: 23/12/2013 às 05:05:58
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.96.248
Mensagem:
O MEIO E A CRÍTICA IMEDIATA - Fidelino de Figueiredo

. . .

d) Balzac, grande revelador ou descobridor de dados novos intuitivos sobre o homem.

Mais ainda melhora a situação, porque já se aproxima da verdadeira função da arte literária, que é um esforço de compreensão do homem, em relativo e em absoluto.

A forma adotada para expressar as suas ficções de substância intuitiva, isto é, o romance, passa a segundo plano.

O que importa é a alta qualidade da madeira em que são construídos aqueles sonhos - para nos expressarmos em linguagem shakespeariana.

. . .

IDEÁRIO CRÍTICO DE FIDELINO DE FIGUEIREDO
ORGANIZAÇÃO  , PREFÁCIO E NOTAS DE
CARLOS DE ASSIS PEREIRA - 1962.

________________  _________
Data: 22/12/2013 às 08:26:38
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.88.148
Mensagem:
O MEIO E A CRÍTICA IMEDIATA - Fidelino de Figueiredo

. . .

c) - Balzac marco milionário da evolução do gênero literário soberano em seu século, portanto um preparador do romance realista considerado como ideal ponto de chegada.

A situação melhora com este juízo, porque nele há já influência dos historiadores da literatura e do seu sentido de perspectiva.

Mas há nele também a presença de prejuízos profissionais limitadores.

Com este juízo ainda se apouca o autor da Comédie Humaine, como se apouca Cervantes e o seu Quijote, quando se vê na novela só um glorioso marco miliário na evolução do gênero.

. . .

IDEÁRIO CRÍTICO DE FIDELINO DE FIGUEIREDO
ORGANIZAÇÃO  , PREFÁCIO E NOTAS DE
CARLOS DE ASSIS PEREIRA - 1962.
__________________  _______
Data: 21/12/2013 às 06:13:04
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.73.157
Mensagem:
O MEIO E A CRÍTICA IMEDIATA - Fidelino de Figueiredo

. . .

b) Balzac espelho de sua época, historiador dos costumes, de tudo que normalmente escapa aos historiadores das singularidades históricas, revoluções e guerras, governos e instituições.

Interp  retação errada, como errada era já a respeito de Shakespeare e há-de voltar a sê-lo a respeito de Camilo, de Zola, de Ibsen, de Eça de Queiros e de Anatole France.

Este conceito aproxima-se de declarada intenção de Balzac.

Mas não se deve julgar um artista pela intenção que declara, sim pelas realizações plenas que na sua obra descobrimos.

Os grandes artistas excedem-se sem o saber. Nunca Cervantes poderia adivinhar o patrimônio de emoções e ideias que nos legava, como os seus pais jamais poderiam adivinhar que genial criatura punham no mundo.

. . .

IDEÁRIO CRÍTICO DE FIDELINO DE FIGUEIREDO
ORGANIZAÇÃO  , PREFÁCIO E NOTAS DE
CARLOS DE ASSIS PEREIRA - 1962.

________________  __________
Data: 20/12/2013 às 07:02:05
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.87.151
Mensagem:
O MEIO E A CRÍTICA IMEDIATA - Fidelino de Figueiredo

. . .

Recordando o vário caráter da infinidade de estudos sobre a Comédie Mumaine poder-se-ia estabelecer esta sequência de rubricas ou direções críticas:

a) Balzac industrial da emoção, fornecedor de um público ávido de enredos empolgantes, de livros denunciadores que facilmente se convertem em livros de chave.

É um critério de editor e de público multitudinário, que o emparceira com os industriais do romance e da biografia da cultura intervalar, tipo Stephan Zweig e André Maurois.

. . .

IDEÁRIO CRÍTICO DE FIDELINO DE FIGUEIREDO
ORGANIZAÇÃO  , PREFÁCIO E NOTAS DE
CARLOS DE ASSIS PEREIRA - 1962.

________________  ________
Data: 19/12/2013 às 05:02:49
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.97.85
Mensagem:
O MEIO E A CRÍTICA IMEDIATA - Fidelino de Figueiredo

. . .

Não se creia, porém, que os juízos penetrantes e bem
documentados, e sobretudo esclarecidos por um largo espírito, os de Taine, hajam perdurado inatacáveis.

Emile Faguet, em nome de um impressionismo sem mais lei que as limitações flutuantes e subjetivas do bom gosto, ainda há-de opor muitas restrições ao seu gênio, num livrinho que parece algumas vezes mais um panfleto antibalzaquiano do que um estudo metódico.

Até ao próprio Brunetière há-de tomar contas do que ele afirmou sobre o romancista, a Brunetière que o mesmo Faguet considerava ainda um tipo "à la Balzac".
não pela ambição dinheirosa, sim pela desmedida audácia conquistadora de posições.

. . .

IDEÁRIO CRÍTICO DE FIDELINO DE FIGUEIREDO
ORGANIZAÇÃO  , PREFÁCIO E NOTAS DE
CARLOS DE ASSIS PEREIRA - 1962.

________________  _______
Data: 18/12/2013 às 03:55:43
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.71.31
Mensagem:
O MEIO E A CRÍTICA IMEDIATA - Fidelino de Figueiredo

. . .

Dentro da evolução da crítica literária, os juízos sobre Balzac só ganharam objetividade plena com Taine.

Já com Hippolyte Castille, com Georges Sand e Théophile
Gautier a crítica balzaquiana havia dado passos consideráveis.

Mas foi preciso que o romancista morresse ou desatravancasse o caminho dos outros, para que se lhe fizesse justiça dessassombrada.

As palavras calorosas de Victor Hugo iniciaram, em forma comovida, essa justiça corajosa.

E o estudo de Taine, em 1858, realizou-a insuperavelmente, levantando-o à altura de Shakespeare, como criador gigantesco de um mundo real, dramaticamente real, bom e mau como é, no fundo, o próprio homem, máquina de interesses de dinheiro, de poder e de sexo, de rivalidade e ódios, e de alguns bons desígnios ou tolerantes complacências.

E com isso, vinha a absolvição de imoralidade que lhe imputava a crítica sua coetânea.

. . .

IDEÁRIO CRÍTICO DE FIDELINO DE FIGUEIREDO
ORGANIZAÇÃO  , PREFÁCIO E NOTAS DE
CARLOS DE ASSIS PEREIRA - 1962.

________________  _______


Data: 17/12/2013 às 04:31:48
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.73.158
Mensagem:
O MEIO E A CRÍTICA IMEDIATA - Fidelino de Figueiredo

. . .

É verdadeiramente picante que este tradicionalista, com suas nostalgias do velho regímen, com seus planos de restauração dos prestígios da aristocracia como verdadeira nata social, que foi Balzac doutrinador, viesse a ministrar motivos contrários de demolição revolucionária.

E a crítica russa contemporânea regressa a Balzac para o erguer à altura de genial preparador do advento do quarto Estado pela demonstração do esgotamento e da incapacidade do terceiro.

Esta inversão dos juízos da opinião política lembra aquela outra do ambiente português, onde o Marquês de Pombal, um déspota, engrandecedor da autoridade real, é detestado pelas classes conservadoras e levantando às nuvens pelas classes liberais.

. . .

IDEÁRIO CRÍTICO DE FIDELINO DE FIGUEIREDO
ORGANIZAÇÃO  , PREFÁCIO E NOTAS DE
CARLOS DE ASSIS PEREIRA - 1962.

________________  _________










Data: 16/12/2013 às 05:39:16
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.106.127
Mensagem:
O MEIO E A CRÍTICA IMEDIATA - Fidelino de Figueiredo

. . .

Mas o curioso é que houve logo em tempo de Balzac, fora do mundo literário, quem se fixasse nele como pintor de massas, de massas burguesas, naturalmente, daquele tipo de massas que a Revolução Francesa havia levado ao poder e que se encontrava então na fase de tripúdio pelo enriquecimento e no caminho vertiginoso da podridão por efeito da liberdade excessiva e da riqueza excessiva.

Foi aquele par de espíritos, Karl Marx e Frederico Engels,. irmanados como se gêmeos fossem, os quais viram a Comédie Humaine como um conjunto demonstrativo e judicativo dessa sociedade burguesa e dela extraírem alentos para a constituição e formulação da sua filosofia do materialismo histórico.

. . .

IDEÁRIO CRÍTICO DE FIDELINO DE FIGUEIREDO
ORGANIZAÇÃO  , PREFÁCIO E NOTAS DE
CARLOS DE ASSIS PEREIRA - 1962.

________________  _________

Data: 15/12/2013 às 08:15:10
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.106.127
Mensagem:
O QUE É O ESPIRITISMO? - José Herculano Pires

"Espiritismo é uma questão de bom-senso, como escreveu Kardec, mas as criaturas insensatas estão por toda parte.

Precisamos manter constante vigilância em nossos estudos para não cairmos nas mistificações que nos levam a deturpar e aviltar a doutrina.

Bastaria um pouco de humildade para vermos, como ensina Kardec, a ponta de orelha do mistificador, que sempre aparece nos textos mentirosos ou ilusórios. A mistificação se alimenta de vaidade e pretensão, desse orgulho infantil a que não escapam nem mesmo pessoas ilustradas. Muitas vezes, pelo contrário, as pessoas ilustradas não passam de analfabetas ilustres, por sua vaidade pueril, à mistificação, do que as pessoas humildes, mas dotadas de bom-senso.

Kardec tem razão ao afirmar que o bom-senso e a humildade são preservativos da mistificação. Nenhum espírito nos mistifica se nós mesmos já não estivermos nos mistificando por vontade própria".

Livro Curso Dinâmico de Espiritismo, o grande desconhecido, Herculano Pires, pág. 90.

__________________  _________
Data: 15/12/2013 às 07:33:24
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.108.250
Mensagem:
O MEIO E A CRÍTICA IMEDIATA - Fidelino de Figueiredo

. . .

Um dos achados de Balzac, precisamente o que se incorporou na evolução do gênero, o reaparecimento das
personagens, foi impugnado em seu tempo: Chaudesaigues e Julesv Janin veem nessa peculiaridade de composição apenas um fator de inextricável confusão que envolve contradições.

G. de Molènes, da Revue des Deux, confina-o em pintor
de interiores.

Vale a pena lembrar os termos em que faz a sua delimitação muito nítida: "M. de Balzac est un peintre
et de portraits; qu'il étudie le jeu des physáonomies, les efects d'ombre et de lumière dans les chambres, et
qu'il laisse reproduire à d'autres les champs où se heurtent les masses humaines".

. . .

IDEÁRIO CRÍTICO DE FIDELINO DE FIGUEIREDO
ORGANIZAÇÃO  , PREFÁCIO E NOTAS DE
CARLOS DE ASSIS PEREIRA - 1962.

________________  _________
Data: 14/12/2013 às 08:05:41
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.88.22
Mensagem:
VIVEIRO - 10/12/80

Hélio Pinto

até parece que o homem resolveu feder
e espalhar a merda toda pelo planeta.
john lennon viveu quarenta anos
varrendo o assoalho da cabeça dos meninos
levantando o pó dos ossos apodrecidos dos velhos
cantando a gana de ser livre
exaltando o que há de mais humilde no mundo,
a verdade.
até parece que a felicidade morreu
e que o preconceito geral renasce a cada manhã
em diferentes partes.
para que escrever coisas como
"imagine que não há propriedade, que não há paraíso...
imagine todos os povos dividindo todo o mundo"
se até os mais sensíveis sentem-se ameaçados?
o poder de imaginar todos temos, o poder de viver
e acreditar nisso, poucos têm.
lennon - que remédio, virou mito
respirou profundamente o ar que alimenta este planeta
e jamais deixou de refletir sobre o homem.
alimentou-se de amor, de música e se revoltou
contra a pobreza cerebral.
nós, juventude sem muita perspectiva, estamos nos sentindo
mal e achamos que a brincadeira melhor é a de ciranda.
para lennon, um abraço apertado; para os que não querem entendê-lo, meus pêsames.

____________  _____________
Data: 13/12/2013 às 06:28:41
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.92.158
Mensagem:
O MEIO E A CRÍTICA IMEDIATA - Fidelino de Figueiredo

. . .

Stendhal, em 1838, confessou a sua admiração pelo cronista dos sofrimentos e pequenezes da vida provincial, que Balzac soube ser.

Esta espontânea confissão parecia um agradecimento antecipado da justiça, que Balzac, primeiro que ninguém, faria à Chartreuse de Parme.

Musset, no ano anterior, pintava um retrato-caricatura do romancista sob o nome de Evaristo e mencionava os seus romances quase ilegíveis e o seu estilo inçado de barbarismos; e a ambição estulta de se constituir em expressão do século, para o que andava caçando as suas personagens e os seus temas pela Chaussée de Antin, pelo bairro de Saint-Germain, pelos comércios, pelos ministérios, pelo Bairro Latino. . .

. . .

IDEÁRIO CRÍTICO DE FIDELINO DE FIGUEIREDO
ORGANIZAÇÃO  , PREFÁCIO E NOTAS DE
CARLOS DE ASSIS PEREIRA - 1962.

________________  _________
Data: 12/12/2013 às 04:39:20
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.92.158
Mensagem:
O MEIO E A CRÍTICA IMEDIATA - Fidelino de Figueiredo

. . .

Para P. Lacroix as ideias de Balzac são falsas tanto em moral quanto em literatura. Para o crítico da Revue Européenne, ele faz romances divertidos em estilo vivo e espirituosos, para servir um público ávido de "amusement"; é um romancista como tantos outros; "sous ce raport tous les romans du jour se ressemblent". São muitos os depoimentos de curto alcance. Só devem ser destacados os de Sainte-Beuve, que lhe reconhece a força da luta apesar da falta de uma "bonne presse", vê rm Eugénie Grander uma obra prima, aponta a originalidade da sua pintura da vida privada, embora logo em 1840 achasse que já era tempo de acabar - acabar em toda a linha: "... nous voudrions ne pas ajougter qu'il a déja eu le temps de mourir, malgrée les cinquant autres romans qu'il s'appréte à publier encore. Il a tout l'air d'être ocupé à finir comme il a commencé, par cent volumes que personne ne lira . . ." A posteridade responde de modo irrevogável a esta profecia de Sainte-Beuve, que nunca foi um grande homem e deixou muitas vezes de ser um grande crítico.

. . .

IDEÁRIO CRÍTICO DE FIDELINO DE FIGUEIREDO
ORGANIZAÇÃO  , PREFÁCIO E NOTAS DE
CARLOS DE ASSIS PEREIRA - 1962.

________________  _______
Data: 11/12/2013 às 07:28:13
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.87.159
Mensagem:
O MEIO E A CRÍTICA IMEDIATA - Fidelino de Figueiredo

. . .

Temos de nos contentar com a seleta crítica do Prof. Marcel Hervier, Les Écrivains Français jugés por leurs Contemporains, que recapitula juízos sobre autores dos séculos XVI-XIX - ao passo que a obra do erudito espanhol, Miguel Herrero-Garcia, Estimaciones Literarias, se confina ao século XVII ou "siglo de oro".

NO vol. 4.º da obra de Hervier há um capítulo consagrado a Balzac. Na sua brevidade é flagrante de ensinamentos, sobretudo se os completarmos com as reações de Balzac, declaradas nas preciosas Lettres à l'Etrangère (1833-1844).

Quanta injustiça, quanta miopia, quanta incompreensão até nos melhores espíritos e também quanta intuição dos que se sentiam perplexos ante coisa tão nova e o confessavam de maneira muito tímida!

. . .

IDEÁRIO CRÍTICO DE FIDELINO DE FIGUEIREDO
ORGANIZAÇÃO  , PREFÁCIO E NOTAS DE
CARLOS DE ASSIS PEREIRA - 1962.

________________  _________
Data: 10/12/2013 às 05:16:27
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.73.47
Mensagem:
O MEIO E A CRÍTICA IMEDIATA - Fidelino de Figueiredo

. . .

É esta a causa dos frequentes enganos da crítica literária aplicada às obras recém-nascidas, mesmo àquelas que o desenvolvimento histórico ou o fluir dos meios receptores veio a considerar muito grandes, grandes até à imortalidade. Não são enganos, são tentativas de uma coisa impossível, a adivinhação de um destino e, portanto, de toda história das ideias, das experiências e dos gostos.

No caso de Balzac muitos são os juízos equivocados sobre La Comédie Humaine expressos no seu tempo, à medida que se ia levantando a cidade-turbilhão da sua fantasia. Não temos, pelo menos não conheço nenhuma obra sobre a evolução da crítica balzaquiana, tão completa como a de Ralli sobre Shakespeare e a de Newman I. White sobre Shelley. Provavelmente a Alemanha possui coisa equivalente a respeito de Goethe.

. . .

IDEÁRIO CRÍTICO DE FIDELINO DE FIGUEIREDO
ORGANIZAÇÃO  , PREFÁCIO E NOTAS DE
CARLOS DE ASSIS PEREIRA - 1962.

________________  _________
Data: 09/12/2013 às 04:57:55
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.100.61
Mensagem:
O MEIO E A CRÍTICA IMEDIATA - Fidelino de Figueiredo

. . .

Se assim é, se a obra de arte literária é eminentemente social, na origem e na carreira, impossível é senti-la e compreendê-la no ponto de partida para essa carreira, quando está ainda fresca a tinta das páginas.

Nesse momento, ela é uma hipótese rica de conteúdos possíveis, é um organismo signográfico - tal a sinfonia que dorme nos rabiscos do músico sobre a pauta.

Já uma vez disse e repito que a crítica imediata ou contemporânea das obras, esta que se faz nos jornais, é impossível se quer ser objetivamente certeira, tão impossível como a professia do destino do recém-nascido, ainda que ele fosse um Camões ou um Gothe (V. A Luta pela Expressão, pág. 155 da ed. port.).

. . .

DIÁRIO CRÍTICO DE FIDELINO DE FIGUEIREDO
ORGANIZAÇÃO  , PREFÁCIO E NOTAS DE
CARLOS DE ASSIS PEREIRA - 1962.

________________  ___________

Data: 08/12/2013 às 13:08:12
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.103.227
Mensagem:
O MEIO E A CRÍTICA IMEDIATA - Fidelino de Figueiredo

. . .

Se a conceituação estética ou emocional e crítica acerca das obras varia, sendo constante a causa produtora dessas emoções e desses juízos, isto é, o texto, é porque a determinação de tais variações está noutra parte.

E não pode estar senão no meio.

E não havendo obra literária viva, sem um meio que a receba, como não há obra musical sem que as vibrações sonoras sejam recebidas por um auditório,
toda a obra literária viva se compõe funcionalmente desse conjunto: o criador ou autor, que concentra todas as influências que determinam a obra; a obra, que dele se solta como organismo vivo do ventre materno e vai viver destino próprio; e os meios sucessivos ou a ondulação infinita das gerações que recebem a obra e lhe incutem um destino ou uma "vária fortuna", como preferiam dizer os italianos.

. . .

IDEÁRIO CRÍTICO DE FIDELINO DE FIGUEIREDO
ORGANIZAÇÃO  , PREFÁCIO E NOTAS DE
CARLOS DE ASSIS PEREIRA - 1962.

________________  _________

Data: 07/12/2013 às 07:10:54
De: Jucilandia Sousa Kocot   Para: Familiares de Edimarcio. - Meu IP: 31.63.137.157
Mensagem: Venho aqui deixar as minhas condolencias, para Mara, Lucia e familiares. E inacreditavel que ele se foi. Tinha tantos planos, sonhos...Alguns concretizados e outros a serem. Era um lutador, corria atras dos seus sonhos. Foi tao cedo. Mas este pouco tempo que viveu, fez muitos amigos.Vivia sempre sorrindo. Foi um bom bom filho, amigo, primo e sobrinho. E triste saber que voce se foi tao cedo. Sentiremos saudades suas. Descanse em paz nos bracos do Senhor. Que o Senhor Jesus de forcas aos familiares neste momento doloroso.
Data: 06/12/2013 às 15:16:49
De: Jucilandia Sousa Kocot   Para: Familiares de Edimarcio. - Meu IP: 31.63.137.157
Mensagem: Venho aqui, deixa as minhas simples palavras de consolo, a Mara, Lucia e familiares. Sabemos como ele era um lutador, um vencedor, corria atras dos seus sonhos. Era um bom filho, primo, sobrinho e amigo. Sempre sorrindo. E inacreditavel que voce se foi. Descanse em paz Edimarcio, vai fazer muita falta a todos nos, que por um curto momento fez parte das nossas vidas amigo. Que o Senhor Jesus consola e dar forcas a esta familia, no momento tao triste.
Data: 06/12/2013 às 06:55:11
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.68.142
Mensagem:
O MEIO E A CRÍTICA IMEDIATA - Fidelino de Figueiredo

. . .

Uma das provas mais concludentes da colaboração dos meios ledores no significado social das obras está na decepção, que hoje nos causam obras outrora grandemente aplaudidas, e na alta reputação de outras só muito tarde sentidas na sia íntima riqueza; é difícil sentir hoje o intuito revolucionário que os contemporâneos atribuíram às comédias de Beaumarchais e perceber as razões estéticas do entusiasmo dos românticos pelos Promessi Sposi de Manzoni; surpreende-nos o culto cego dos mesmos românticos por Lorde Byron, a respeito do qual começa hoje a correr nas histórias literárias um processo para apurar se na verdade ele era um grande poeta.

E o mesmo se poderá observar quanto à obra fundibulária de Guerra Junqueiro e Gomes Leal.

E sem necessidade de recorrer aos gênios da estatura de Shakespeare ou de um Balzac.

. . .

IDEÁRIO CRÍTICO DE FIDELINO DE FIGUEIREDO
ORGANIZAÇÃO  , PREFÁCIO E NOTAS DE
CARLOS DE ASSIS PEREIRA - 1962.

________________  ___________
Data: 06/12/2013 às 06:45:57
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.68.68
Mensagem:
O MEIO E A CRÍTICA IMEDIATA - Fidelino de Figueiredo

. . .

No recebimento da arte, impassibilidade significaria incompreensão. Todas as grandes construções ideais pela palavra ou pelo som, pela cor ou pela forma em volume necessitam de uma longa carreira de luta, através das gerações com sua volubilidade, para chegar a um repouso de contemplação quase unânime.

Era esta verdade que estava por detrás da concepção plebiscitária da crítica, segundo Henri Lichtenberger.

As modernas ideias sobre a presença do meio na carreira interpretativa da obra literária revalorizaram os velhos alvitres deste germanista, em seu tempo não muito bem compreendidos. Também não considerados pelo próprio proponente em toda a extensão das suas consequências.

. . .

IDEÁRIO CRÍTICO DE FIDELINO DE FIGUEIREDO
ORGANIZAÇÃO  , PREFÁCIO E NOTAS DE
CARLOS DE ASSIS PEREIRA - 1962.

________________  __________
Data: 05/12/2013 às 06:22:14
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.72.49
Mensagem:
O MEIO E A CRÍTICA IMEDIATA - Fidelino de Figueiredo

. . .

Uma grande obra de arte é uma convergência de forças espirituais, de luz e calor, que logo após a momentânea concentração focal da mente e da sensibilidade do autor, parte a irradiar influências e a suscitar as mais variadas reações, através dos ambientes que a recebem e gozam, e julgam com repulsa ou com agradecimento.

Como se não concebe um concerto sem público, uma representação dramática sem plateia, um discurso sem auditório, não há obra de arte literária sem repercussão no público ledor. Este público ou estes públicos sucessivos e sempre vários nas suas ansiedades e nos seus problemas formam a caixa de ressonância para a voz do artista, dão a perspectiva para o panorama de supra-realidade que ele criou e recriam-no ou desfiguram-no em cada hora. Não há leitura impassível.

. . .

IDEÁRIO CRÍTICO DE FIDELINO DE FIGUEIREDO
ORGANIZAÇÃO  , PREFÁCIO E NOTAS DE
CARLOS DE ASSIS PEREIRA - 1962.

________________  ___________
Data: 04/12/2013 às 02:07:56
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.113.217
Mensagem:
O MEIO E A CRÍTICA IMEDIATA - Fidelino de Figueiredo

. . .

Como Ralli fez um volumoso compêndio dos juízos críticos sobre Shakespeare, proferidos durante os largos séculos da sua incompreensão, assim se poderia organizar uma antologia da vária fortuna de Balzac.

O lapso de tempo desse tatear da crítica de Balzac foi muito menor que o da crítica shakesperiana.

O trágico de Stratford teve de conquistar a Europa à mão armada, no dizer de um historiador dessa conquista. Paul Van Tieghem. Mas seria igualmente profícuo percorrer com detença este século de ideias sobre Balzac para mostrar os enganos da crítica do seu tempo - enganos para os historiadores dela e os cépticos dessa atividade; para provar a impossibilidade da crítica imediata, preferiria eu dizer.
Data: 03/12/2013 às 08:54:03
De: Esportista Itanhenhense   Para: Prefeitura, Comerciantes e demais - Meu IP: 187.29.38.119
Mensagem: Venho através desde espaço alerta para nossos governantes, comerciantes e demais populares: abram os olhos para nosso esporte. O evidente descaso está vindo a tona, exemplo mais claro atualmente é o que estão fazendo com nossos garotos do futsal, que por intermédio com prof. Clayton Lopez vem realizando um belo trabalho frente ao nossos garotos do sub-20, que recentemente conquistou o título do zonal extremo sul baiano, disputado mês passado em Santa Cruz de Cabrália, o que deu vaga para a equipe disputasse a fase final em Luiz Eduardo Magalhães nos dias 6,7 e 8 de Dezembro.
Até ai tudo as mil maravilhas, até ai... pois agora nossa equipe está ameaçada de não poder disputar o título de campeão baiano na categoria sub-20 por falta de DINHEIRO para arcar com gastos de ALIMENTAÇÃO para os atletas e comissão técnica...
UMA VERGONHA PARA NOSSOS GOVERNANTES MUNICIPAIS, COMERCIANTES E AMANTES DO ESPORTE...

Por isto que peço para que vc que esteje lendo, não deixe esse sonho acabar, se puder colabore com nossos GUERREIROS a lutarem por este sonho...
Data: 03/12/2013 às 02:05:31
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.85.130
Mensagem: O MEIO E A CRÍTICA IMEDIATA - Fidelino de Figueiredo

. . .

Passaram cem anos sobre a morte de Balzac. É dever dos devotos da sua memória alguma coisa fazer para que não afrouxe o culto de um dos mais poderosos criadores da arte literária e dos mais esforçados pesquisadores do caráter humano.

Estes cem anos decorridos sobre o seu desaparecimento por consumpção no fogo do próprio gênio e nos tormentos de um grande amor oculto foram cem anos de esplendor do gênero literário que ele ergueu à maior dignidade e estimação pública. E foram também cem anos de crítica e história literária ou de ciência da literatura.

E como o romance de Balzac, ou todo o imenso mundo nele contido, foi tema constante das análises, avaliações e interpretações da crítica, poderíamos afirmar que a evolução dos juízos sobre Balzac representa com fidelidade a própria evolução da crítica, no seu século áureo e no seu reinado francês.

. . .

IDEÁRIO CRÍTICO DE FIDELINO DE FIGUEIREDO
ORGANIZAÇÃO  , PREFÁCIO E NOTAS DE
CARLOS DE ASSIS PEREIRA - 1962.

________________  __________
Data: 02/12/2013 às 11:35:39
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.69.9
Mensagem:
O MEIO E A CRÍTICA IMEDIATA - Fidelino de Figueiredo

. . .

Todos nós, os que lemos e meditamos a novela imortal durante mais de três séculos, todos colaboramos na discriminação do seu conteúdo e na recriação dela: grandes e pequenos críticos, eruditos anedóticos e historiadores da literatura, ensaístas argutos e os recônditos leitores desconhecidos.

E o primeiro a surpreender-se do que nós todos descobrimos na sua obra seria o próprio Cervantes, como qualquer pai, que ressuscitasse, desconheceria o filho ilustre, que deixara ainda infante e entregue ao seu destino.

E esta carreira indefinida, recriadora ou desfiguradora da obra literária, é o último ato da luta pela expressão, uma agonia perpétua da mente humana, que no escritor atinge o grau superior do tormento, porque o artista da palavra faz dessa onipresença da palavra e dessa impotência da palavra a sua arte dolorosa e a sua expiação do pecado de viver.

Completam-se deste modo, uma à outra, a minha concepção ascética da função do escritor (V. O Dever dos Intelectuais) e a minha concepção agônica da essência da arte literária.

. . .

IDEÁRIO CRÍTICO DE FIDELINO DE FIGUEIREDO
ORGANIZAÇÃO  , PREFÁCIO E NOTAS DE
CARLOS DE ASSIS PEREIRA - 1962.

________________  ________
Data: 01/12/2013 às 07:12:37
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.112.204
Mensagem:
O BURRO E O BOI NO PRESÉPIO (Catálogo Esparso)

O PINTURICCHIO:
"A Sagrada Família".
Siena, R. Accademia.

De longe,
o que é menos primitivo animal
e nobre e tristonho:
os rostos,
os cenhos.


Buscam
o
b  ebê
nenê
o
em nós
mais menininho.

Do livro: AVE, PALAVRA - GUIMARÃES ROSA.

Data: 30/11/2013 às 12:09:38
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.112.204
Mensagem:
O MEIO E A CRÍTICA IMEDIATA - Fidelino de Figueiredo

. . .

Faz pensar no fumo azulado que sobe do rescaldo de alguma fogueira, em que arderam as mais disparatadas coisas.

Hoje, após três séculos de reflexão, lê-se o Quijote para entender melhor a vida e para a dourar com sonhos que chegam a erguer-nos acima da condição humana.

É uma obra empapada de vida humana condensada, com as suas mais amargas decepções e os seus mais alados idealismos.

Não a lemos todos, porque os seus descobrimentos já se incorporaram no patrimônio mitológico da nossa idade.

Todas as épocas tem suas mitologias, porque os homens não se deixam guiar pelas ideias puras, só as assimilam quando lhas disfarçam em emoção, símbolo e mito.

Nem todos lemos o Quijote, mas todos vivemos o Quijote. Igualmente, são poucos os leitores de Copérnico e Newton ou, se preferem, de Shakespeare, mas todos aproveitamos dia a dia os seus descobrimentos.

. . .

IDEÁRIO CRÍTICO DE FIDELINO DE FIGUEIREDO
ORGANIZAÇÃO  , PREFÁCIO E NOTAS DE
CARLOS DE ASSIS PEREIRA - 1962.

________________  _________
Data: 30/11/2013 às 12:02:52
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.73.18
Mensagem:
O BURRO E O BOI NO PRESÉPIO (Catálogo Esparso)

SANO DI PIETRO:
"O Presépio".
Roma, Pinacoteca Vaticana.

Quase esquivas testemunhas,
ante a manjedoura
- sepulcro, sarcófago -
jazem
em canto, oculto, calmo.

Sob os circunsequentes anjos e astros,
e o drama e o vácuo.
Como o Menino.

Do livro: AVE, PALAVRA - GUIMARÃES ROSA, 1970.

________________  ______

Data: 29/11/2013 às 08:21:04
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.73.18
Mensagem:
O MEIO E A CRÍTICA IMEDIATA - FIDELINO DE FIGUEIREDO

. . .

E surgiu o segundo Quijote, menos cômico e menos batalhador que o primeiro, mas mais ingenuamente crédulo e mais melancolicamente discursador, para comentar e justificar os seus atos, como já os nobres heróis homéricos e todos os heróis antigos ao mesmo tempo praticavam as suas façanhas e as explicavam com eloquência, como o Nun'Álvares dos Lusíadas, tão fecundo quão valente.

Desde então o Quixote percorre fases sucessivas de interpretação: sátira política, sátira literária de chave, autobiografia, um símbolo e outro, para chegar a ser o que é hoje: o mais representativo mito da Idade Moderna. Para o sentir deve-se abstrair de toda a sua prolixidade e heterogeneidade, tudo aquilo que se destinou a divertir os "desenfadados" leitores renascentistas, e concentrar a nossa reflexão sobre a pura essência, una e subtilíssima, que se evola desseconjunto variado.

. . .

IDEÁRIO CRÍTICO DE FIDELINO DE FIGUEIREDO

ORGANIZAÇ  O, PREFÁCIO E NOTAS DE
CARLOS DE ASSIS PEREIRA - 1962.
Data: 29/11/2013 às 08:13:21
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.93.6
Mensagem:
O BURRO E O BOI NO PRESÉPIO (Catálogo Esparso)

GENTILE DA FABRIANO:
"Adoração dos Magos".
Florença, Uffizi.

A fábula de ouro, o viso, o
Céu que se abre,
chamaram-nos
de seu sono ou senso sem maldade.
Tão ricos de nada ser,
tão seus somente.

Capazes de guardar
no exigido espaço
a para sempre grandeza
de um momento.

Com sua quieta ternura,
ambos, que contemplam?

Sabem.
Na  da aprendem.

Do livro: AVE, PALAVRA - GUIMARÃES ROSA, 1970.

Data: 28/11/2013 às 07:39:17
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.93.6
Mensagem:
O MEIO E A CRÍTICA IMEDIATA - FIDELINO DE FIGUEIREDO

. . .

Já não era uma espirituosa paródia ao Amadis de Gaula, como sátira contra um gosto dominante e como instrumento "provocante a risa", mas um sublime arquétipo de todas as perfeições morais, em que se quintessenciava o ideal moribundo da cavalaria, tão puro que só uma vez no mundo e por um louco poderia ser vivido.

E Cervantes deu-se pressa em escrever e publicar a segunda parte da novela, para nos perfazer o retrato do seu herói, para o restituir à sua fisionomia autêntica.

A segunda parte não deixa de ter seu propósito polêmico.

Temos que agradecer ao desconhecido autor do falso Quijote a sua ação estimulante e decisiva sobre o espírito de Cervantes. Quantas obras imortais se deverão a essa origem impura da emulação e da retificação acintosa!

. . .

IDEÁRIO CRÍTICO DE FIDELINO DE FIGUEIREDO
ORGANIZAÇÃO  , PREFÁCIO E NOTAS DE
CARLOS DE ASSIS PEREIRA - 1962.

________________  _____________
Data: 28/11/2013 às 07:28:31
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.81.154
Mensagem:
O BURRO E O BOI NO PRESÉPIO (Catálogo Esparso)

ZURBARÁN:
"Adoração dos Pastores".
Museu de Grenoble.


O Boi é um
rosto a menos
entre os humanos.

Do livro: AVE, PALAVRA - GUIMARÃES ROSA, 1970.
Data: 27/11/2013 às 02:53:02
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.81.154
Mensagem:
O MEIO E A CRÍTICA IMEDIATA - FIDELINO FIGUEREDO

. . .

Cervantes era, porém, muito mais que um autor cômico, era um gênio criador de símbolos e mitos eternos - o precário eterno humano, entenda-se -; sentia a vida em toda a profundidade do seu drama e da sua amargura. E escrevia após dolorosas experiências, depois de ter vivido a sua vida.

A sua obra literária é já da madurez, atividade recolhida de soldado reformado e mutilado, e de pequeno funcionário desiludido, e aqueles ajustes de contas com a vida, que está no fundo de toda a grande obra literária.

E o Quijote transfigurou-se-lhe adentro das suas meditações solitárias. E a elaboração prosseguiu. Quando em 1614 apareceu um outro Quijote, que a falsa continuação da novela, assinada por um suposto Avellaneda, punha a correr, então Cervantes reconheceu pelo contraste a distância que havia entre aquele e o seu. Não somente o tipo se adulterava, ao transformar-se no Caballero desamorado e ao curar-se a intervalos da loucura para dela ter consciência e disso mais sofrer, mas também o que de fiel se mantinha do tipo cervantino já não era atual, porque entretanto o herói manchego transfigurara-se.

. . .

IDEÁRIO CRÍTICO DE FIDELINO DE FIGUEIREDO
ORGANIZAÇÃO  , PREFÁCIO E NOTAS DE
CARLOS DE ASSIS PEREIRA - 1962.

________________  _______
Data: 27/11/2013 às 02:45:58
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.76.216
Mensagem:
O BURRO E O BOI NO PRESÉPIO - (Catálogo Esparso)

SANO DI PIETRO:
"O Nascimento de Jesus".
Roma, Pinacoteca Vaticana.

Parelhos
bi  chos de trabalho,
onde tudo é estarrecida oração
e alarmado prestígio:
morte e aurora.

Não vigiam o céu.
Aguardam
um futuro sem passado.

Sua sólida presença
talvez fosse necessária.

Do Livro: AVE, PALAVRA - GUIMARÃES ROSA, 1970.
Data: 26/11/2013 às 05:25:22
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.76.216
Mensagem:
O MEIO E A CRÍTICA IMEDIATA

. . .

Novo gosto ensinado também pela Itália, mas que já encontrava
ambiente favorável nas tradições peninsulares, com sua novelística e suas influências orientais.

No Romancero continham-se poderosos gérmenes novelescos.

Os românticos os aproveitariam.

Aquela primeira parte do Quijote, de 1605, assertoando tantos contos e narrativas da mais variada proveniência e do mais díspar caráter, visava a entreter esse gosto de histórias, para divertir e despertar o riso.

Poderia chamar-se-lhe, quanto à intenção e ao tom geral, em bom castelhano quinhentista, uma Colección de novelas de burlas provocantes a risa.

Como tal circulou no século XVII. Um grande inventor ou descobridor de situações cômicas - eis que Cervantes foi na primeira fase da carreira da sua obra. Todas as impressões dos seus leitores setecentistas confirmam este juízo.

. . .

IDEÁRIO CRÍTICO DE FIDELINO DE FIGUEIREDO
ORGANIZAÇÃO  , PREFÁCIO E NOTAS DE
CARLOS DE ASSIS PEREIRA - 1962.

________________  ____
Data: 26/11/2013 às 05:16:34
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.86.59
Mensagem:
O BURRO E O BOI NO PRESÉPIO (Catálogo Esparso)

FRA FILIPPO LIPPI:
"Natividade".
Ca  tedral de Spoleto.

Obscientes sorrisos
- orelhas, chifres, focinhos,
claros -
fortes como estrelas.

Inermes, grandes.

Sós com a Família (a ela se incorporam),
são os que a hospedam.
Alguma coisa cedem
à imensa história.

Dp livro: AVE, PALAVRA - GUIMARÃES ROSA, 1970.

________________  ______

Data: 25/11/2013 às 06:14:47
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.86.59
Mensagem:
O MEIO E A CRÍTICA IMEDIATA - FIDELINO DE FIGUEIREDO

. . .

Mas como Cervantes era muito mais que um dos tais críticos ficcionistas, à maneira de Cesare Caporali, inventor da coisa, ou à maneira do anônimo autor do Entremés de los Romances, aquela unidade condensada dos seis primeiros capítulos ampliou-se e precisou-se na sua intenção satírica e burlesca.

Completou-se o quadro: identifica-se Dulcinéia naquela pobre labrega, só famosa na sua aldeia por "la mejor mano para salar puercos", e surge o comparsa indispensável das cavalarias, o escudeiro Sancho.

E com "la segunda salida" se delineia toda uma transposição em burlesco do Amadis de Gaula.

Cervantes dava-nos, por fim, uma novela mordente contra um tipo de gosto lierário, já arcaico. E essa novela, verdadeiramente uma pinha de novelas, mirava a contentar outro gosto mais atual, o gosto renascentista de contar e ouvir histórias de amor e aventuras estranhas as inverossimilhanças cavalheirescas.

. . .

IDEÁRIO CRÍTICO DE FIDELINO DE FIGUEIREDO
ORGANIZAÇÃO  , PREFÁCIO E NOTAS DE
CARLOS DE ASSIS PEREIRA - 1962.

________________  _______
Data: 25/11/2013 às 06:06:31
De: POPULAÇÃO DE ITANHÉM   Para: ITANHEMFEST - Meu IP: 187.29.53.33
Mensagem: APESAR DE SÉRIO,ESTE SITE FOI MUITO INFELIZ AO POSTAR ESSA REPROTAGEM SOBRE O VEEREADOR CABEÇÃO,UMA VEZ QUE,A CÄMARA NÃO É FORMADA SOMENTE PARA SE ELABORAR E APROVAR PROJETOS,MAS,IGUALMENTE,P  ARA SE FISCALIZAR O EXECUTIVO.E ISSO ,O CABEÇÃO TEM FEITO MUITO BEM,NÃO APROVANDO AS CONTAS DE 2011,ALÉM DE EMPETRAR UM MANDATO DE SEGURANÇA CONTRA A APROVAÇÃO DESSAS CONTAS QUE FOI FEITA DE FORMA ILEGAL.DE NADA ADIANTA ELABORAR PROJETOS PARA SEREM ENGAVETADOS PELO PREFEITO.PREFEITO,ESTE,QU  E VEM TENDO AS SUAS CONTAS REPROVADAS PELO TRIBUNAL DE CONTAS DESDE 2010,2011 E AGORA TAMBÉM EM 2012.ESTE SITE DEVERIA FALAR DOS OUTROS VEREADORES QUE APROVARAM ESTAS CONTAS E NÃO DE ELABORAÇÃO DE PROJETOS.SE QUER AJUDAR A POPULAÇÃO CONTINUA POSTANDO OS VÍDEOS DAS REUNIÕES DA CÄMARA PARA QUE O POVO POSSA VER E ANALISAR QUAIS OS VEREADORES QUE ESTÃO FAZENDO EM PROL DE ITANHÉM.
Data: 24/11/2013 às 12:38:35
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.80.85
Mensagem:
O MEIO E A CRÍTICA LITERÁRIA - Fidelino de Figueiredo

. . .

Os seis capítulos iniciais do Quijote constituem uma unidade estética, "la primera salida", em que o escritor satirizava as novelas de cavalarias ou, melhor, fazia crítica literária em forma poética ou ficcionista, mas com a aderência nova da sátira burlesca.

Esta mesma forma cervantina da chamada crítica poética tinha precedentes em língua castelhana, com espírito satírico e tudo: o Entremés de los Romances era um romance satírico ou uma balada satírica dirigida contra a obsessão dos romances e baladas.

Se se provasse seguramente, não conjecturalmente como se tem feito, que a data deste Entremés era anterior ao Quijote, teríamos achado com muita probabilidade o motivo mais próximo de sugestão sobre o espírito de Cervantes.

. . .

ORGANIZAÇÃO, PREFÁCIO E NOTAS DE
CARLOS DE ASSIS PEREIRA - 1962.

________________  ____
Data: 24/11/2013 às 06:06:57
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.80.85
Mensagem: 0 BURRO E 0 BOI NO PRESÉPIO (Catálogo Esparso)

PIERO DELLA FANCESCA:
"A Natividade".
Londres, National Gallery.

Por que zurra para o alto o Burro;
num pedido doloroso?
Por que se abaixa o Boi, opaco,
tão humilde, tão grande?

Nus fantasmas que a luz abduz.
Nus como Jesus
posto entre húmus e plantas,
num canteiro.

____________  _____

Do livro: AVE, PALAVRA - GUIMARÃES ROSA, 1970.
Data: 24/11/2013 às 05:30:43
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.70.229
Mensagem:
O MEIO E A CRÍTICA IMEDIATA - Fidelino de Figueiredo

. . .

Os Lusíadas e o Quixote são bons exemplos desse crescimento das grandes obras, fora das mãos dos seus autores e através da fina crítica dos especialistas e da grossa crítica dos meios ledores, pela história abaixo. . .

. . .Fiquemo-nos com o Quijote que também está "mais crescido" ou mais adiantado no caminho da universalização.

Ent  re o Quijote, como ele foi lido logo em 1605, e o Quijote, como o lemos hoje, há uma grande diferença de conteúdo. A princípio, Cervantes nada mais teria querido fazer do que uma obrinha de "crítica poética". Chamei assim em Pirene a uma típica forma nossa - nossa, de portugueses e espanhóis - da crítica literária, associada à ficção poética, "tipica", apesar de oriunda da Itália, e "poética", apesar das suas posteriores modalidades em prosa. O próprio Cervantes já nos havia dado, nesse gênero ou subgênero, o Canto de Calíope, contido em Galatea, de 1585, e nos daria em 1614, no mesmo ano da conclusão do Quijote, o Viaje del Parnaso. Que o meu amigo J. Gaspar Simões me perdoe de incluir agora Cervantes entre os "cultivadores de gêneros".

. . .

IDEÁRIO CRÍTICO DE FIDELINO DE FIGUEIREDO.
ORGANIZAÇÃ  O, PREFÁCIO E NOTAS DE
CARLOS DE ASSIS PEREIRA - 1962.

________________  ___
Data: 23/11/2013 às 10:36:40
De: catarina   Para: itanhemfest - Meu IP: 200.165.195.73
Mensagem: gostei da mudança só,o que não gostei foi do mural, achei muito escuro, muito escuro mesmo as letras some no meio de tanta cor.
fica a dica!
Data: 22/11/2013 às 23:08:43
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.93.64
Mensagem:
DOM QUIXOTE: a crítica irônica

Diante desse novo mundo, o ideal da cavalaria desmoronou. Nenhum livro marcou esse fato com tanto impacto como o Dom Quixote, do
espanhol Miguel de Cervantes. Seu herói, o célebre Cavaleiro da
Triste Figura, acompanhado pelo fiel e gordo escudeiro Sancho Pança, insiste em reviver amorosos e feitos heroicos dos romances de cavalaria, na realidade de um país empobrecido e cortado não mais pelas sendas da aventura mas pelos prosaicos caminhos reais, percorridos por pacatos clérigos, ávidos burgueses, espertos salteadores e atentos soldados.

Em vez de castelos, Dom Quixote encontra vendas, cidadezinhas e rebanhos; e mesmo a agreste Sierra Morena, onde ele se refugia para fazer uma espécie de retiro espiritual próprio dos cavaleiros andantes, revela-se afinal cruzada por pastores rudes ou gente urbana infeliz. A pujança desta ficou para o Novo Mundo; na nova Europa ela se tornava cenário para as torrentes da alma.

Dom Quixote encarna princípios contrários; ele é santo e é louco, e é um porque é o outro. Irônico, cruel, sublime e grotesco às vezes nas mesmas linhas, Dom Quixote consolida o nascimento da prosa moderna - de que o romance, depois, será o principal veículo.

Distante da sonoridade do verso, a disseminação da prosa consolida a imagem do literato como escritor.

____________  __________

PANORAMA DA LITERATURA
FLÁVIO AGUIAR.
Data: 22/11/2013 às 06:36:55
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.80.121
Mensagem:
O AMOR DE DULCINÉA - Menotti del Picchia

CANÇÃO DE AMOR DE DULCINÉA

Princesa de lenda antiga
num velho solar sem dono
acordei de um longo sono
ao ouvir tua cantiga. . .

Esperei-te - virgem louca! -
pois ofertar-te desejo
todo o perfume do beijo
que há na rosa desta boca. . .

Vede-o! Intrépido galga a escada longa e frágil. . .

Como é esbelto e valente!

E como é moço e ágil!

Um passo em falso e é morto!

E reduz-se a pedaços!

Chegou. . .

Ela suspira. . .

Adora-o!

Abriu-lh  e os braços!

Quixote!

D  ulcinéa. . .

Amor meu!

Meu desejo!

Que foi?

Um arrepio mortal!

Não. Foi um beijo!
Data: 21/11/2013 às 00:49:22
De: Achiles Ribeiro   Para: Itanhemfest - Meu IP: 187.29.51.212
Mensagem: Muito bom o novo site parabens Pita !!!!! Deus abencoe sempre !!
Data: 14/11/2013 às 10:29:29
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.100.12.97
Mensagem: O AMOR DE DULCINÉA - Menotti del Picchia

MOINHOS DE VENTO

Cantemos em louvor do Cavaleiro Andante!

Eu sou uma harpa verde. . .

Eu, uma flauta errante. . .

Refletindo, com o céu, das nuvens os farrapos,
faço o coro orquestral com dois milhões de sapos. . .

Sou o arco de um violino. . . E vós?

A timorata
música do silêncio. . .

Um pandeiro de prata
agito em pleno azul. . .

Na treva taciturna
somos sinos de luz da catedral noturna. . .

____________________  ____
Data: 13/11/2013 às 13:18:29
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.100.42.227
Mensagem: O AMOR DE DULCINÉA - Menotti del Picchia

MOINHOS DE VENTO

Aguardava-o em seu castelo
uma princesa alva e nua
e, vendo-o tão nobre e belo
abriu-lhe os braços: "Sou tua!"

Qu voz! Fluido cristal sonoro como um verso. . .
Tem a maciez de um ninho e os balanços de um berço.
Como um vinho precioso e antigo, embriaga, aquece,
enternece, entristece, enlanguece e adormece. . .

Dorme e ronca como um porco. Começa o sonho de D. Quixote.
O seu pensamento é um parque principesco, ao luar, junto de um castelo roqueiro. De uma janela da torre desce, clássica e liricamente, uma escada de seda. D. Quixote realizou o milagre fáustico: é jovem e belo.
Traz a espada - que é a bravura -
e a bandurra - que é espiritualidade.
Diante do Amor, pela magia do amor,
todas as coisas criam alma e falam.
Data: 12/11/2013 às 14:33:44
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.85.155
Mensagem:
O AMOR DE DULCINÉA - Menotti del Picchia

MOINHOS DE VENTO

Ronca como um cevado!
Tem razão. . . Eu também sinto-me derreado. . .

Eu vi passar pela rua
um cavaleiro espanhol.
Tinha a face cor da lua
e a armadura cor do sol. . .

Doce harpa celestial de música e poesia!
Se a ouviste o rouxinol nunca mais cantaria. . .
Quem será que entoou tão linda melopeia?
Uma princesa moura? Um anjo?

Dulcinéa!

Te  ns razão, patrão! É a voz da vossa dama!

Escuta, Sancho Pança, ela disse que me ama. . .

. . .

____________________  ______
Data: 08/11/2013 às 06:59:42
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.84.98
Mensagem:
O AMOR DE DULCINÉA - Menotti del Picchia

MOINHOS DE VENTO

Bebeste, e quando estás nesse estado indeciso
tens menos juízo que quando estás com juízo
pois sempre tens nenhum. . .

Não credes? Que seria
sem prodígios de fé toda a cavalaria?
Tudo é crença porque, sem a credulidade,
a verdade irreal cederia à verdade
quotidiana, esse torpe, esse asqueroso abismo
imoral de traições, de ambições, de cinismo!

Vinho bom. . . Crendo-o bom, toma o rubro velhaco
sabor do que saiu dos racunos de Baco. . .
Senhor: é mister crer, não ter o ouvido surdo
à enigmática voz que realiza o absurdo!
Exemplo: acreditais - é isso vou-o agradeço -
fazendo-me a justiça inteira que mereço,
que sois o maios feliz de todos os cavaleiros
pois tendes Sancho Pança, a flor dos escudeiros!
Não é isso?

Dormis?

_____  _____________________

 
Data: 07/11/2013 às 06:09:49
De: Jomar Reis   Para: "A quem possa interessar" - Meu IP: 189.79.77.220
Mensagem:
O AMOR DE DULCINÉA - Menotti del Picchia

MOINHOS DE VENTO

Sei: não vos sai da ideia
a beleza sem par da vossa Dulcinéa. . .
Feliz sois meu Senhor, por possuir aquela
que, com ser a mais nobre, é ainda a mais bela. . .
No seu gesto languesce o resplendor do ocaso;
seu porte tem a graça helênica de um vaso;
o timbre da sua voz é uma flauta sonora,
seu olhar é uma estrela e seu rosto uma aurora!

Mas nunca a conheci. . .

Que importa se ela é linda
e vos ama? Senhor! Há de ser vossa ainda. . .
Silêncio. . . Ela está aqui! Reparai bem no dono
desta casa: é seu pai, um velho rei sem trono,
sem reino e sem coroa. . .

E vive num pardieiro?

Um bruxo o transformou num estalajadeiro. . .

____________________  ___
Data: 06/11/2013 às 06:04:18
« Anterior | 1|2|3|4|5|6|7|8|9|10|11|12|13|14|15|16|17|18|19|20|21|22|23|24|25|26|  Próxima »